Finalmente pude entender

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Primeiro, vem aquela sensação de vazio. Depois, você sente seu mundo desmoronar. Em seguida, vem o choro, aliás algumas pessoas choram, eu não gostava de chorar, então só encarei o nada. Senti meu corpo escorregar pela parede, eu podia sentir a textura raspando as minhas costas deixando marcas de arranhões que no dia seguinte só estariam um pouco vermelhas. O tempo parecia passar, enquanto isso, eu tentava raciocinar, mas nada parecia fazer sentido naquele momento. É estranho, parece que você não está mais no seu corpo. É como se, de uma hora para outra, seu corpo deixasse de existir e seu espírito ficasse dando voltas e voltas cada vez mais perdido.

Parece que nada daquilo aconteceu. Mas você sabe que aconteceu, que foi real. Não há palavras para descrever, seu corpo trava, sua mente fica em branco, é preciso gritar, só que não a voz o suficiente para isso. Naquele momento eu pude sentir que uma parte de mim havia morrido, como se uma faca tivesse atravessado meu coração de uma vez só e eu caísse, estirada no chão, sem poder fazer nada. Foi real? Não foi? “Foi. ” – eu ouvia o sussurro na minha cabeça.

Eu queria gritar, mas não conseguia, não tinha forças para isso. Queria dizer o que estava acontecendo dentro de mim, mas eu não tinha condições. Abaixei minha cabeça e abracei meus joelhos com a maior força possível, como se assim eu pudesse estar mais protegida, e senti, pela primeira vez em muitos anos, lágrimas caindo e descendo pelas bochechas. Limpei meus olhos o mais rápido que pude, mas nem isso foi suficiente, logo vieram mais e mais. Eu odiava isso, odiava chorar.

Respirei fundo, ou pelo menos tentei, só consegui ouvir soluços fortes e mais fortes. Comecei a recuperar meus sentidos, meu corpo tremia, eu sentia um frio incontrolável e as lágrimas não paravam de cair. Tentei me levantar, mas eu ainda não tinha forças para isso. Deixei meu corpo lá, encostado na parede e deixei ele sentir tudo aquilo que era necessário. Essa dor guardada, esse medo incontrolável, essa frieza. Então, finalmente, eu consegui entender.

Finalmente eu pude entender toda a dor que eu tinha sentido. Foi sufocante, devastador, mas eu pude sentir. E eu não gostava disso, nunca gostei. Só que essa dor, foi chegando silenciosa, calma, esperando qualquer momento de fraqueza para se apoderar de mim. Eu não queria sair do meu quarto, da minha cama, do meu mundo entre quatro paredes. E então eu pude entender o que tinha acontecido comigo. Parecia que eu tinha passado dias e noites ali, parada, em transe, mas foram apenas algumas horas.

Eu me deixei levar por toda a minha dor, como você me ensinou. E é por isso que eu estou te contando isso. Primeiro, eu senti meus ombros leves. Depois minha respiração foi se ajustando e os soluços parando. Em seguida, eu juntei forças e me levantei dali.

Sabe, eu me olhei no espelho aquele dia, meu corpo parecia destruído, mas apesar disso, meu rosto parecia tranquilo, leve, pacífico. No fim, todos tinham razão, eu tinha me deixado levar pelo pior de mim. Só que eu precisava disso, precisava deixar o pior de mim me levar, para que o melhor me buscasse outra vez. Foi arriscado, eu sei. Porém, cá estou eu te contando isso, não é?

Sei que me arrisquei, mas se não fosse por isso, acho que teria acontecido de qualquer jeito. Era necessário sentir, como você tentou me avisar várias vezes.

Então só posso te agradecer. Obrigada Antônia, obrigada por ter me feito sentir o que era necessário.

Com amor,

Manuella.

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